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LIVRO A PUBLICAR

Novo Livro

 

 

Os Avatares das Ilhas

 

Por: Fátima Fernandes 

Por: M Lurdes Lima

Por: Simone Caputo Gomes

 

 

 

 

 

 

Os Avatares das Ilhas

Numa suposta intenção de narrar a saga de um povo, Os Avatares das Ilhas é um romance que reúne, numa dimensão extemporânea enredos de fundo realista, personagens míticas e referências espacio-temporais enigmáticas, desenhando um universo de sonhos onde preponderam emoções emergentes da relação de forças da natureza e dos homens. 

Tomando o arquipélago de Cabo Verde por referência histórica, económica e política, recupera o antes (as origens, o encontro de culturas, a afirmação da identidade) e quase projecta um depois (reflexão sobre as injustiças, o acreditar no amanhã mais igual e humano), no percurso de Homero, uma espécie de herói que se vê confrontado com as dúvidas, desejos e inquietações próprios de um jovem sagaz, inquieto e insatisfeito na vida e no amor… 

Do início ao fecho, a narrativa encanta-nos e prende-nos pela sua capacidade notável de nos conduzir ao encontro com o inesperado, com o fenómeno da criação genesíaca do homem, o inferno e paraíso, sucessão de tempos e magia explorados até ao limite da fantasia e da ficção 

De linguagem acessível mas escrito de forma cuidada, Os Avatares das Ilhas, trará novas cores ao discurso ficcional cabo-verdiano, pela estrutura complexa do enredo aliada à permanente criatividade de cenários, um exemplo de amadurecimento e da Literatura Cabo-verdiana contemporânea. 

Fátima Fernandes 

Novembro 2007



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Os Avatares das Ilhas

Os Avatares das Ilhas. Ou a infindável demanda da identidade cabo-verdiana

Para o leitor, que sou e somos, um livro é sempre uma descoberta, às vezes agradável, outras nem tanto. Umas vezes fácil, outras, só possível depois de várias leituras.

Este livro Os Avatares das Ilhas é um romance, como esclarece o seu Preâmbulo. Lê-se para se descobrir, sim, que é um romance sui generis. Sui generis é também uma classificação que tem sido dada à identidade cabo-verdiana, designadamente por antropólogos, nacionais e estrangeiros, e só cito dois de entre muitos

- Alberto Sobrero, Lopes Filho. Muito tem sido dito sobre o que é ser cabo-verdiano, a nível dos ensaios que se interrogam sobre este objecto. A nível da produção poética, da nossa escassa produção romancística, a tal ponto que será de acarinhar, lendo, traduzindo, relendo, criticando os livros que a pertinácia, o amor e curiosidade, ou tudo isso junto vai gerando.

Um dos factores que contribui para a característica sul generis acima apontada é que este é um romance de tese, em cuja arquitectura entram elementos estruturantes como a conceptualização, a organização textual, a articulação entre a forma e o fundo, expressão e conteúdo. Um romance cujo conteúdo indica a preocupação de denunciar as inverdades aquela que está no relatório dum governador colonial, a que está nos mais recentes desenvolvimentos da nossa História por escrever.

Sui generis ainda porque procura representar a realidade da forma como um romance o faz. Ou seja, o romance não descreve factos, que é trabalho de outro tipo de texto. Um romance, esse, interpreta e representa o sentido do real e se o real pode ser descrito em factos, muito mais pode ser interpretado e representado através da construção de sentidos, uma construção sábia que o romance e só ele pode tentar fazer.

Sul generis ainda porque, pela sua natureza, o romance permite entretecer num todo coerente, orgânico, elementos que de outro modo seriam dispersos. É assim que encontraremos, o leitor e habitué das epopeias, em Os Avatares das Ilhas um Homero e um Eneias, que raros conheciam e agora passam a conhecer nesta crioula épica saga. Encontraremos em Os Avatares das Ilhas ainda, sugerida, se não erro, a transformação do romance culto que em pura alquimia se modifica na boca do povo.

Como é que de tais elementos dispersos organiza o todo, para se atingir a tal coerência orgânica de que acima se fala? Falemos de arquitectura, texto que combinam tais elementos distintos. Ou seja, há uma arquitectura do texto pela qual se tecem as Mitologias, inventadas, reinventadas e consagradas. Assim o Homero que, de autor histórico, surge aqui em avatar, numa transmigração em que o criador se torna criatura e pode dialogar com um Eneias, ainda, como há vinte séculos, criatura imortal por um criador que não o é. Herói, Homero em oitava letra. Heróis mais: Samuel, Lina, Benvinda. O herói é o que se expõe num concurso para o hino nacional? O herói é um cavalheiro que se expõe a uma atroz punição apenas para defender o bom nome da sua dama? Ou a dama é o herói, em luta contra as convenções sociais que diminuem não só a mulher mas também a criatura humana? A dama é este herói que adapta o seu combate a novos valores? O herói? Heróis ou antj-heróis? Terá o leitor a resposta? Haverá respostas para as perguntas que o leitor vai descobrindo? A demanda será mesmo interminável? Estaremos perante o romance aberto, o preconizado no nouveau roman de que nos falou o “Preâmbulo”?

Como se faz a actualização destes Avatares nestas Ilhas? Ilhas. Sabemos quais são estas ilhas, os seus nomes estão lá, e designadas na sua realidade toponímica, brincam com os conceitos de invenção e reinvenção.

Um leitor é atraído desde cedo pelos aparatos do livro, por um título, por aquilo que já sabe de outros livros, pelas sugestões ao seu próprio mundo que o livro promete. Esse é o ar de família que convive com um aspecto, paradoxal, inquietante até: o livro também tem de ser um desafio.

Este é um livro que desafia o leitor. Em especial, mais que o leitor em demanda da identidade, aquele que não deixou murchar em si uma das qualidades que fez avançar a nossa espécie desde a aurora dos tempos: a curiosidade.

Como se faz a actualização destes Avatares nestas Ilhas? Ilhas que têm nome, trazido de fora, nomes que tomaram a forma e sobretudo o fundo que lhe demos, lhe dermos. Por isso, é importante o verbo abundante, os jogos em que o Maravilhoso e o Real dialogam, as sinestesias, o ritmo próprio numa estrutura 3-4-2, que dá o compasso a “Ilhas amordaçadas” mas também “ubíquas” e de “desvario” — como na utopia que é uma eu topia, a das ruas que sabemos e sonhamos que um dia vão ser o lugar do Belo. Isto, acho, é o principal que pedimos a um livro familiar e curioso como estes Avatares das Ilhas.


M Lurdes Lima


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Os avatares das ilhas

 

Dividido em três partes, antecedidas de um Preâmbulo explicativo, este livro de Daniel Euricles Rodrigues Spínola vem acrescentar mais qualidade ao trabalho inovador do artista multifacetado _ poeta, ficionista, pintor_ que é Danny Spínola.

O percurso das ilhas de Cabo Verde, ora amordaçadas, ora desvairadas e, afinal, ubíquas, vai sendo traçado pelo escritor que “embrenha decididos pés pelas entranhas da terra” (retomando um mote do tempos da Claridade) em dias de “sal e saliva”, no intuito de resgatar “a história de longos e suados dias de sal sem pão” vividos pelos “deserdados da terra” _ os “flagelados do vento leste... que aprenderam com o vento a bailar na desgraça e aprenderam a comer pedras para não perecerem” _ e que, apesar das dificuldades, amam a sua terra, defendendo-a com tenacidade na guerra e na paz, na seca e na azágua, em tempos de repressão ou de liberdade.

Homero, a personagem principal do romance (ou ficção, como indistintamente a denomina o autor), funciona como um duplo do escritor, já que é o encarregado, como o aedo (aoidós) grego, de preservar a Memória dos feitos de seu povo por meio de uma épica que entremeia realidade e mito, como o confirmam os motes míticos ao início de cada capítulo. Lembremos que o Homero grego, cego, vê além, podendo captar uma dimensão sobrenatural, segundo a lenda. No caso da ficção Os avatares das ilhas, o escritor é uma figura que representa um dos mestres da verdade, como diz Le Goff, pois é um homem possuído pela memória do passado, assim como detém as projeções do futuro.

Assim, o tema-base do que Danny Spínola chama de romance ou ficção em seu Preâmbulo _ verdadeiro guia para o leitor _ é, de forma “pouco ortodoxa”, “retratar o percurso histórico do povo cabo-verdiano, herói (e anti-herói) um pouco ao jeito de uma saga, ao mesmo tempo que retrata a sua cultura e idiossincrasia” (p. 9).

O percurso das ilhas e suas metamorfoses também é trilhado por esta ficção de “estrutura prismática” ou livro dentro do livro dentro de outro livro num mecanismo que “nunca acabava”, como elucida o autor, por meio de estórias que desencadeiam outras estórias, num desdobramento de fragmentos de vida que fundem várias dimensões (real, surreal, histórica, insólita, utópica, onírica) e vários subtemas: violência, dor, angústia, revolta, drogas, sexo, alegria, júbilo, amor, bondade.

O fio histórico que conduz a abordagem de alguns capítulos bifurca-se entre um olhar crítico sobre a corrupção, a degradação social e humana e, por outro lado, uma visão utópica.

Os temas considerados “tradicionais” da saga literária cabo-verdiana dos “flagelados da fome e da PIDE” _ a seca, a fome, a semeadura “a seco”, a emigração para as roças de São Tomé _ e a reconstrução do país com a liberdade propiciada pela independência, destacando as manifestações culturais nacionais identitárias como a morna, o funaná, as finasons, o batuque, a txabeta, a tabanka, o pilão, a cachupa, o cuscus, o xerém, o grogue, o pontxi, a festa de Nho São Filipe (expressão do sincretismo religioso afro-luso), assim como os mitos cabo-verdianos de origem, as paisagens paradisíacas de algumas ilhas como Fogo, Sal, São Vicente são também expostos neste instigante livro que se volta para o passado, mas apontando para o futuro.

A pintura em Cabo Verde, com seus artistas consagrados na contemporaneidade, tem ainda um lugar de destaque nesta viagem pelo fio do tempo projetado no espaço arquipelágico.

As novas formas de energia (eólica, solar, marítima) utilizadas para melhoria da qualidade de vida, as barragens para reter as águas das chuvas e a dessalinização da água do mar configuram, em contraponto com a sementeira “em pó” praticada pelas personagens claridosas de Manuel Lopes, a luta titânica do Sísifo (símbolo do povo, na ótica de Danny Spínola) cabo-verdiano que, com perseverança e resistência de cabra, forja, com a experiência do passado, o seu futuro.

Para finalizar em culminância, no capítulo quatro da última parte do romance o protagonista Homero _ ‘servo das Musas’ (assim como o aedo grego) que concedem ao homem comum uma voz melodiosa e harmônica, além do dom de compreender o real em sua totalidade, passado, presente e futuro _, ao cumprir a missão de registrar a gesta do povo cabo-verdiano em sua trajetória épica pela sobrevivência, acaba por encontrar a sua musa maior: a Vênus que, do seu púbis, dá origem às ilhas de Cabo Verde.

Tal avatar (divindade encarnada em ser humano), dama em forma de luz, alevantada das profundezas do mar, já surgira no conto “O púbis da Vênus”, publicado na revista Pré-textos 1/1992. Aqui, por meio da fusão dos campos mítico e onírico operada pelo artista, a deusa deposita nas mãos de Homero um facho de espigas de milho, símbolo do “devir dos dias”. Cumpridas as tarefas que propôs para Homero, a deusa, no cimo de um vulcão, vem à vida como “mãe, mulher e filha do mar” e, enfim, como amada que, unida ao homem cabo-verdiano, cria as ilhas: “Ao todo são dez, enxertadas das tuas mãos e dos teus olhos e do meu púbis”.

Sísifo cumpre, afinal, a sua tarefa: o Homero cabo-verdiano (personagem e autor), com um olhar que trespassa o real expandindo-se para outras dimensões e com a escrita literária, pedra de gravar memórias, contempla-nos com uma belíssima leitura prismática do heroísmo coletivo do povo crioulo.



Simone Caputo Gomes

Junho de 2007

 

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