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Novo Livro
Os
Avatares das Ilhas
Os
Avatares das Ilhas
Numa
suposta intenção de narrar a saga de um povo, Os
Avatares das Ilhas é um romance que reúne, numa
dimensão extemporânea enredos de fundo realista,
personagens míticas e referências espacio-temporais
enigmáticas, desenhando um universo de sonhos onde preponderam
emoções emergentes da relação de forças
da natureza e dos homens.
Tomando o arquipélago
de Cabo Verde por referência histórica, económica
e política, recupera o antes (as origens, o encontro de
culturas, a afirmação da identidade) e quase projecta
um depois (reflexão sobre as injustiças, o acreditar no
amanhã mais igual e humano), no percurso de Homero, uma
espécie de herói que se vê confrontado com as
dúvidas, desejos e inquietações próprios
de um jovem sagaz, inquieto e insatisfeito na vida e no amor…
Do início ao
fecho, a narrativa encanta-nos e prende-nos pela sua capacidade
notável de nos conduzir ao encontro com o inesperado, com o
fenómeno da criação genesíaca do homem, o
inferno e paraíso, sucessão de tempos e magia
explorados até ao limite da fantasia e da ficção
De
linguagem acessível mas escrito de forma cuidada, Os
Avatares das Ilhas, trará novas cores ao discurso
ficcional cabo-verdiano, pela estrutura complexa do enredo aliada à
permanente criatividade de cenários, um exemplo de
amadurecimento e da Literatura Cabo-verdiana contemporânea.
Fátima Fernandes
Novembro 2007
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Os
Avatares das Ilhas
Os
Avatares das Ilhas. Ou a infindável demanda da identidade
cabo-verdiana
Para
o leitor, que sou e somos, um livro é sempre uma descoberta,
às vezes agradável, outras nem tanto. Umas vezes fácil,
outras, só possível depois de várias leituras.
Este
livro Os Avatares das Ilhas é um romance, como esclarece o seu
Preâmbulo. Lê-se para se descobrir, sim, que é um
romance sui generis. Sui generis é também uma
classificação que tem sido dada à identidade
cabo-verdiana, designadamente por antropólogos, nacionais e
estrangeiros, e só cito dois de entre muitos
-
Alberto Sobrero, Lopes Filho. Muito tem sido dito sobre o que é
ser cabo-verdiano, a nível dos ensaios que se interrogam sobre
este objecto. A nível da produção poética,
da nossa escassa produção romancística, a tal
ponto que será de acarinhar, lendo, traduzindo, relendo,
criticando os livros que a pertinácia, o amor e curiosidade,
ou tudo isso junto vai gerando.
Um
dos factores que contribui para a característica sul generis
acima apontada é que este é um romance de tese, em cuja
arquitectura entram elementos estruturantes como a conceptualização,
a organização textual, a articulação
entre a forma e o fundo, expressão e conteúdo. Um
romance cujo conteúdo indica a preocupação de
denunciar as inverdades aquela que está no relatório
dum governador colonial, a que está nos mais recentes
desenvolvimentos da nossa História por escrever.
Sui
generis ainda porque procura representar a realidade da forma como um
romance o faz. Ou seja, o romance não descreve factos, que é
trabalho de outro tipo de texto. Um romance, esse, interpreta e
representa o sentido do real e se o real pode ser descrito em factos,
muito mais pode ser interpretado e representado através da
construção de sentidos, uma construção
sábia que o romance e só ele pode tentar fazer.
Sul
generis ainda porque, pela sua natureza, o romance permite entretecer
num todo coerente, orgânico, elementos que de outro modo seriam
dispersos. É assim que encontraremos, o leitor e habitué
das epopeias, em Os Avatares das Ilhas um Homero e um Eneias, que
raros conheciam e agora passam a conhecer nesta crioula épica
saga. Encontraremos em Os Avatares das Ilhas ainda, sugerida, se não
erro, a transformação do romance culto que em pura
alquimia se modifica na boca do povo.
Como
é que de tais elementos dispersos organiza o todo, para se
atingir a tal coerência orgânica de que acima se fala?
Falemos de arquitectura, texto que combinam tais elementos distintos.
Ou seja, há uma arquitectura do texto pela qual se tecem as
Mitologias, inventadas, reinventadas e consagradas. Assim o Homero
que, de autor histórico, surge aqui em avatar, numa
transmigração em que o criador se torna criatura e pode
dialogar com um Eneias, ainda, como há vinte séculos,
criatura imortal por um criador que não o é. Herói,
Homero em oitava letra. Heróis mais: Samuel, Lina, Benvinda. O
herói é o que se expõe num concurso para o hino
nacional? O herói é um cavalheiro que se expõe a
uma atroz punição apenas para defender o bom nome da
sua dama? Ou a dama é o herói, em luta contra as
convenções sociais que diminuem não só a
mulher mas também a criatura humana? A dama é este
herói que adapta o seu combate a novos valores? O herói?
Heróis ou antj-heróis? Terá o leitor a resposta?
Haverá respostas para as perguntas que o leitor vai
descobrindo? A demanda será mesmo interminável?
Estaremos perante o romance aberto, o preconizado no nouveau roman de
que nos falou o “Preâmbulo”?
Como
se faz a actualização destes Avatares nestas Ilhas?
Ilhas. Sabemos quais são estas ilhas, os seus nomes estão
lá, e designadas na sua realidade toponímica, brincam
com os conceitos de invenção e reinvenção.
Um
leitor é atraído desde cedo pelos aparatos do livro,
por um título, por aquilo que já sabe de outros livros,
pelas sugestões ao seu próprio mundo que o livro
promete. Esse é o ar de família que convive com um
aspecto, paradoxal, inquietante até: o livro também tem
de ser um desafio.
Este
é um livro que desafia o leitor. Em especial, mais que o
leitor em demanda da identidade, aquele que não deixou murchar
em si uma das qualidades que fez avançar a nossa espécie
desde a aurora dos tempos: a curiosidade.
Como
se faz a actualização destes Avatares nestas Ilhas?
Ilhas que têm nome, trazido de fora, nomes que tomaram a forma
e sobretudo o fundo que lhe demos, lhe dermos. Por isso, é
importante o verbo abundante, os jogos em que o Maravilhoso e o Real
dialogam, as sinestesias, o ritmo próprio numa estrutura
3-4-2, que dá o compasso a “Ilhas amordaçadas”
mas também “ubíquas” e de “desvario”
— como na utopia que é uma eu topia, a das ruas que
sabemos e sonhamos que um dia vão ser o lugar do Belo. Isto,
acho, é o principal que pedimos a um livro familiar e curioso
como estes Avatares das Ilhas.
M Lurdes Lima
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Os
avatares das ilhas
Dividido
em três partes, antecedidas de um Preâmbulo explicativo,
este livro de Daniel Euricles Rodrigues Spínola vem
acrescentar mais qualidade ao trabalho inovador do artista
multifacetado _ poeta, ficionista, pintor_ que é Danny
Spínola.
O
percurso das ilhas de Cabo Verde, ora amordaçadas, ora
desvairadas e, afinal, ubíquas, vai sendo traçado pelo
escritor que “embrenha decididos pés pelas entranhas da
terra” (retomando um mote do tempos da Claridade) em
dias de “sal e saliva”, no intuito de resgatar “a
história de longos e suados dias de sal sem pão”
vividos pelos “deserdados da terra” _ os “flagelados
do vento leste... que aprenderam com o vento a bailar na desgraça
e aprenderam a comer pedras para não perecerem” _ e que,
apesar das dificuldades, amam a sua terra, defendendo-a com
tenacidade na guerra e na paz, na seca e na azágua, em tempos
de repressão ou de liberdade.
Homero,
a personagem principal do romance (ou ficção, como
indistintamente a denomina o autor), funciona como um duplo do
escritor, já que é o encarregado, como o aedo (aoidós)
grego, de preservar a Memória dos feitos de seu povo
por meio de uma épica que entremeia realidade e mito, como o
confirmam os motes míticos ao início de cada capítulo.
Lembremos que o Homero grego, cego, vê além, podendo
captar uma dimensão sobrenatural, segundo a lenda. No caso da
ficção Os avatares das ilhas, o
escritor é uma figura que representa um dos mestres da
verdade, como diz Le Goff, pois é um homem possuído
pela memória do passado, assim como detém as projeções
do futuro.
Assim,
o tema-base do que Danny Spínola chama de romance ou ficção
em seu Preâmbulo _ verdadeiro guia para o leitor _ é, de
forma “pouco ortodoxa”, “retratar o percurso
histórico do povo cabo-verdiano, herói (e anti-herói)
um pouco ao jeito de uma saga, ao mesmo tempo que retrata a sua
cultura e idiossincrasia” (p. 9).
O
percurso das ilhas e suas metamorfoses também é
trilhado por esta ficção de “estrutura
prismática” ou livro dentro do livro dentro de outro
livro num mecanismo que “nunca acabava”, como elucida o
autor, por meio de estórias que desencadeiam outras estórias,
num desdobramento de fragmentos de vida que fundem várias
dimensões (real, surreal, histórica, insólita,
utópica, onírica) e vários subtemas: violência,
dor, angústia, revolta, drogas, sexo, alegria, júbilo,
amor, bondade.
O
fio histórico que conduz a abordagem de alguns capítulos
bifurca-se entre um olhar crítico sobre a corrupção,
a degradação social e humana e, por outro lado, uma
visão utópica.
Os
temas considerados “tradicionais” da saga literária
cabo-verdiana dos “flagelados da fome e da PIDE” _ a
seca, a fome, a semeadura “a seco”, a emigração
para as roças de São Tomé _ e a reconstrução
do país com a liberdade propiciada pela independência,
destacando as manifestações culturais nacionais
identitárias como a morna, o funaná, as finasons, o
batuque, a txabeta, a tabanka, o pilão, a cachupa, o cuscus, o
xerém, o grogue, o pontxi, a festa de Nho São Filipe
(expressão do sincretismo religioso afro-luso), assim como os
mitos cabo-verdianos de origem, as paisagens paradisíacas de
algumas ilhas como Fogo, Sal, São Vicente são também
expostos neste instigante livro que se volta para o passado, mas
apontando para o futuro.
A
pintura em Cabo Verde, com seus artistas consagrados na
contemporaneidade, tem ainda um lugar de destaque nesta viagem pelo
fio do tempo projetado no espaço arquipelágico.
As
novas formas de energia (eólica, solar, marítima)
utilizadas para melhoria da qualidade de vida, as barragens para
reter as águas das chuvas e a dessalinização da
água do mar configuram, em contraponto com a sementeira “em
pó” praticada pelas personagens claridosas de Manuel
Lopes, a luta titânica do Sísifo (símbolo do
povo, na ótica de Danny Spínola) cabo-verdiano que, com
perseverança e resistência de cabra, forja, com a
experiência do passado, o seu futuro.
Para
finalizar em culminância, no capítulo quatro da última
parte do romance o protagonista Homero _ ‘servo
das Musas’ (assim como o aedo grego) que concedem ao homem
comum uma voz melodiosa e harmônica, além do dom de
compreender o real em sua totalidade, passado, presente e futuro
_, ao cumprir a missão de registrar a gesta do povo
cabo-verdiano em sua trajetória épica pela
sobrevivência, acaba por encontrar a sua
musa maior: a Vênus que, do seu púbis, dá origem
às ilhas de Cabo Verde.
Tal
avatar (divindade encarnada em ser humano), dama em forma de luz,
alevantada das profundezas do mar, já surgira no conto “O
púbis da Vênus”, publicado na revista Pré-textos
1/1992. Aqui, por meio da fusão dos campos mítico e
onírico operada pelo artista, a deusa deposita nas mãos
de Homero um facho de espigas de milho, símbolo do “devir
dos dias”. Cumpridas as tarefas que propôs para Homero, a
deusa, no cimo de um vulcão, vem à vida como “mãe,
mulher e filha do mar” e, enfim, como amada que, unida ao homem
cabo-verdiano, cria as ilhas: “Ao todo são dez,
enxertadas das tuas mãos e dos teus olhos e do meu púbis”.
Sísifo
cumpre, afinal, a sua tarefa: o Homero cabo-verdiano (personagem e
autor), com um olhar que trespassa o real expandindo-se para outras
dimensões e com a escrita literária, pedra de gravar
memórias, contempla-nos com uma belíssima leitura
prismática do heroísmo coletivo
do povo crioulo.
Simone
Caputo Gomes
Junho
de 2007
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